Welington Serra Lazarini é enfermeiro da PMV e doutorando em Saúde Coletiva pela UFES
Larissa Bezerra de Oliveira é graduanda em enfermagem pela UFES

Pensar o trabalho do profissional de enfermagem em um contexto marcado pela globalização, desigualdades sociais, achatamento das políticas sociais, conflitos migratórios, avanço das doenças reemergentes, entre outros, torna-se um desafio demasiadamente complexo. É inegável a força e a importância desses milhares de trabalhadoras e trabalhadores que se espalham pelo mundo, desenvolvendo com mestria seu trabalho, sua ciência e sua arte.
A enfermagem, enquanto categoria profissional, foi se arquitetando a partir dos trabalhos de Florence Nightingale na Guerra da Criméia no século XIX. O ato de “cuidar dos doentes” historicamente continuou a ser dirigido à enfermagem, que passou a desenvolver suas atividades de modo sistematizado e com base no conhecimento científico, marcado pelas noções do higienismo e pelo paradigma biomédico.
No Brasil, a construção da enfermagem acompanhou as transformações dos modelos assistenciais à saúde no país ao longo do século XX. Do Campanhismo e suas ações coercitivas no enfrentamento às doenças infectocontagiosas, às lutas engendradas no interior do Movimento Sanitário em prol da conquista ao direito a saúde, a enfermagem sempre se fez presente com seus erros e acertos.
Com o advento do Sistema Único de Saúde nas últimas três décadas, a enfermagem brasileira vem alcançando um protagonismo tão grande quantos os desafios diários que enfrenta. Segundo uma pesquisa da Fiocruz realizada em 2015, o Brasil possui mais de 2 milhões de profissionais de enfermagem, sendo 80% destes auxiliares e técnicos de enfermagem e 20% enfermeiros. Desse contingente, quase 85% são mulheres, que mantém uma jornada extenuante de trabalho dentro e fora de casa. Quanto aos postos de trabalho, quase 60% das equipes de enfermagem estão alocadas no setor público. Assim, destaca-se a aprovação do congelamento dos “gastos” públicos com a saúde pelos próximos 20 anos e o desmonte do sistema público de saúde que sentencia uma piora expressiva da situação dos trabalhadores de enfermagem, que já é degradante.
Como pensar em melhoria da qualidade de vida da população, sem pensar na melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde? Como promover saúde integral tratando as áreas sociais como gasto e não como investimento? Como valorizar a enfermagem sem promover um debate sério sobre as assimetrias entre homens e mulheres em nossa sociedade?
Em tempos sombrios, no qual ainda convivemos com o individualismo, o machismo, as desigualdades e com a perda de direitos fundamentais, o cuidado se atualiza em um belo ato político de resistência. Defender e valorizar a enfermagem também é comprometer-se com esta compreensão de cuidado.

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